Quem acompanha a série Panoramas e Perspectivas, publicada desde a edição de agosto (leia a reportagem deste mês na página 54), já ficou sabendo que uma mudança conceitual vem transformando o ensino de Língua Estrangeira nas últimas duas décadas: o uso de situações reais de comunicação em aula. "Dentro delas, os recursos lingüísticos - gramática e vocabulário, por exemplo - ganham sentido. A turma enxerga um objetivo no uso da linguagem em sociedade", diz Andrea Vieira Miranda Zinni, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.
Foto: Marcos Rosa
PESQUISA DE GÊNERO Na escola Stance Dual, a turma conhece artigos de opinião lendo revistas em português e inglês
Ir ao cinema, seguir instruções para brincar com jogos, preparar comidas seguindo uma receita... Os exemplos de atividades são muitos. Mas, para que elas de fato contribuam para o aprendizado da língua, é preciso seguir um planejamento cuidadoso. Uma pergunta fundamental dá o pontapé inicial ao trabalho: em que atividades sociais reais os alunos estão envolvidos? Incluir nesse diagnóstico questões que levem em conta o contexto cultural dos estudantes é um jeito de seguir uma recomendação da teoria socioconstrutivista - sempre que uma atividade social for realizada, deve-se baseá-la no conhecimento prévio dos estudantes.
Com seus alunos de 7º ano na Escola Stance Dual, em São Paulo, a professora de Língua Inglesa Ana Paula Barbosa Risério Cortez descobriu que um dos grandes dramas era avisar aos pais de que haviam "ficado" com alguém. Ela percebeu também que muitos eram leitores de revistas para adolescentes. Do cruzamento dessas duas atividades, surgiu uma proposta de trabalho: que tal produzir uma publicação teen com artigos que ajudassem a responder à dúvida da garotada: How to tell parents about the first kiss? (Como contar aos pais sobre o primeiro beijo?, leia a seqüência didática ao lado).
Preparação trabalhosa
"O planejamento é a hora de pensar o que os alunos devem aprender", afirma a professora. A atividade precisa ser escolhida em função dos conteúdos que se quer ensinar. Num trabalho como o de Ana Paula, a situação real (ler revistas teen) inclui um conjunto de gêneros (reportagens, resenhas e entrevistas), que podem ser trabalhados numa seqüência definida pela professora. Folheando publicações em inglês e em português para conhecer os diferentes gêneros, os estudantes discutiram os contextos de produção de cada um deles - seus objetivos, tipo de linguagem, os possíveis leitores etc. Concluíram que os artigos opinativos, especialmente os com termos mais próximos do dia-a-dia, eram os mais adequados para a tarefa.
Para garantir a aprendizagem, é essencial abordar os recursos lingüísticos que compõem o gênero escolhido. Nessa fase, os alunos de Ana Paula aprenderam verbos no presente simples, os mais usados para dar conselhos, além de palavras típicas do universo jovem. Assim, vocabulário e gramática deixam de ser vistos sem clareza sobre sua função comunicativa. Aos olhos da garotada, a Língua Inglesa aparece como ferramenta para agir no mundo. Aí, o aprendizado acontece.
CONTATOS
Ana Paula Barbosa Risério Cortez
Escola Stance Dual, R. Avanhandava, 682, 01306-001, São Paulo, SP, tel. (11) 3255-2780
BIBLIOGRAFIA
Reflexão e Acões no Ensino - Aprendizagem de Línguas, Leila Bárbara Rosinda de Castro Guerra Ramos (org.), 368 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 54 reais
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